Alvo de crítica dos EUA, triangulação comercial com Brasil e China é improvável

A inclusão do Brasil em uma lista de países que os Estados Unidos acusam de ajudar a China a driblar as tarifas impostas pela Casa Branca ao gigante asiático é mais um expediente com fundamento frágil na agressiva política externa americana para governos da América Latina em geral e, em particular, para Brasília.

Neste mês, a Casa Branca publicou um relatório sobre o que considera o desafio crescente do “transporte cruzado ilegal de mercadorias”, sobretudo da China, por meio de países terceiros. No documento, o governo americano listou e classificou 40 países acusados dessa prática.

O Brasil foi enquadrado no Grupo 2, de “Líderes de Escala” com significativa integração econômica com a China. Além do Brasil, estão nesse grupo Indonésia, Malásia, Tailândia, Turquia e Vietnã.

De acordo com a Casa Branca, esses países combinam volumes expressivos de transporte cruzado ilegal com uma integração mais profunda em cadeias de suprimentos ligadas à China, no fornecimento de insumos, plataformas de manufatura, sistemas logísticos e canais regionais de redirecionamento de rotas.

“Esses países possuem escala industrial, capacidade portuária, infraestrutura de fornecedores, profundidade de manufatura ou capacidade logística suficientes para movimentar volumes significativos de mercadorias ligadas à China em direção aos fluxos comerciais com os EUA”, diz o relatório.

Especificamente Brasil e Turquia atuariam como plataformas regionais maiores de produção e logística, capazes de sustentar operações de redirecionamento ou transformação em categorias de produtos selecionadas, diz a Casa Branca sem citar exemplos.

O Brasil ainda é citado junto com Argentina, Chile, Colômbia e Peru como integrante de um “corredor latino-americano” de transporte cruzado ilegal.

Segundo especialistas, a triangulação de produtos chineses é um tema antigo. Com a ofensiva americana de tarifas à China, dizem, é, sim, possível que os chineses estejam buscando outros países para acessar o mercado dos EUA de forma mais barata, mas essa é uma história que faz mais sentido para o vizinho Vietnã, por exemplo, do que para o Brasil.

O Brasil, lembram, é o segundo país mais taxado pelos EUA, atrás apenas da própria China e empatado com a Turquia, indicando não ser o melhor território para triangulação.

Um cruzamento de dados feito pelo Valor entre produtos que o Brasil importa da China e que vende para aos EUA mostra que o “comércio em comum” entre os três países é pouco relevante nas exportações do Brasil para os americanos, representando menos de 6% do total (veja gráfico acima).

O documento da Casa Branca cita uma série de estudos com estimativas de custos para os cofres americanos com a triangulação. Um deles, do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca (CEA, na sigla em inglês), estima o potencial de transferência cruzada ilegal para 2025 em US$ 34,2 bilhões a US$ 89,6 bilhões.

Para o cálculo, o CEA parte de uma metodologia apresentada por Caroline Freund, diretora da Escola de Política e Estratégia Globais da Universidade da Califórnia em San Diego e especialista em comércio internacional, em um estudo chamado “A ‘Lavagem’ Chinesa: Rastreando produtos para identificar a evasão de tarifas por meio de transporte cruzado”, em uma tradução livre para o português.

A pesquisa de Freund, no entanto, não cita o Brasil. Ao Valor ela explica que o país faz pouco sentido como centro de triangulação de mercadorias da China para os EUA por três razões. Uma é precisamente que as tarifas dos EUA sobre produtos fabricados no Brasil são elevadas, e a tarifa de importação no Brasil também tende a ser alta.

“Seria difícil obter vantagem tarifária por meio do transporte cruzado via Brasil. Em outras palavras, o objetivo da triangulação é justamente evitar tarifas, mas as altas tarifas brasileiras sobre importações, somadas às elevadas tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros, tornam isso impossível”, diz.

A segunda razão é que o Brasil não é uma opção conveniente sob a ótica de transporte e logística. “Uma rota que passasse pela China e pelo Brasil seria dispendiosa, pois o país não está no caminho”, afirma Freund.

Por fim, ela observa que o Brasil não é um grande exportador de produtos manufaturados.

“Em consonância com isso, as importações [nos EUA] provenientes do Brasil registraram queda entre 2024 e 2025”, observa Freund. Pelo lado brasileiro, as vendas aos americanos recuaram quase 7% de um ano para o outro, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) do Brasil.

O que analistas são unânimes em afirmar é que a política tarifária de Trump – que tem como motivação, ao menos em parte, a irritação americana com a presença e parceria comercial chinesa com a América Latina – está, na verdade, empurrando o Brasil para a Ásia.

“Os bancos e as autoridades brasileiras farão o necessário para preservar o acesso do país ao sistema financeiro americano. Mas a trajetória atual aumenta as chances de que, com o tempo, mais empresas brasileiras prefiram uma contraparte sem nada a perder nesse sistema – um fornecedor, banco ou financiador chinês”, escrevem James Story e Ricardo Zúniga para o think tank Atlantic Council.

Eles se referem não apenas à cruzada tarifária dos EUA contra o Brasil, mas também à abordagem americana para a segurança na América Latina.

Também neste mês, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que as Forças Armadas americanas se preparam para realizar operações no território de países aliados com o objetivo de combater organizações de narcotráfico na América Latina. Ele disse que “organizações designadas como terroristas, em conjunto com governos parceiros, serão alvos legítimos do governo dos Estados Unidos”.

A fala gerou confusão na imprensa brasileira, já que os EUA classificaram oficialmente os grupos criminosos nacionais Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, mas essa denominação não foi reconhecida pelo governo brasileiro, tampouco foi firmado qualquer acordo de cooperação entre os dois países para combater as facções. O Departamento de Defesa não respondeu a pedidos de esclarecimentos sobre a fala de Hegseth e o caso do Brasil.

“A coerção raramente funciona com o Brasil. Cada medida destinada a remediar um problema identificado pelo governo [americano] no Brasil, na verdade, reforça a percepção de que a aposta mais segura a longo prazo é depender menos dos Estados Unidos”, dizem Story e Zúniga.

Story foi oficial do serviço exterior americano no Brasil, enquanto Zúniga foi cônsul-geral dos EUA em São Paulo e subsecretário-adjunto principal no Departamento de Assuntos do Hemisfério Ocidental. Esse braço do departamento de Estado americano que engloba a América Latina, inclusive, acaba de receber um novo chefe, com a nomeação do empresário republicano bilionário Juan Pablo Segura.

Parte dos analistas tem a avaliação de que a definição de um nome para um cargo importante que seguia ocupado apenas interinamente desde 2025 pode ajudar na comunicação entre setores públicos e privados do Brasil e dos EUA. Mas Segura também já fez duras críticas públicas ao Brasil anteriormente, sobretudo ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

“Pequim traz seus próprios riscos e opacidade, mas Washington é cada vez mais visto como o parceiro mais instável e pouco confiável”, afirmam Story e Zúniga.