Filas de navios pressionam portos brasileiros e ameaçam janelas de embarque

Levantamentos de consultorias e armadores mostram pressão em vários portos do país nas últimas semanas, com café e grãos disputando janelas e berços em plena transição de safra

 

Navio fundeado aguardando atracação em porto brasileiro

A fila de navios deixou de ser um problema localizado no Porto de Santos e passou a aparecer em boa parte do mapa portuário brasileiro. Na semana de 30 de setembro a 6 de outubro, os porta-contêineres que buscavam berço em Navegantes (SC) ficaram, em média, cinco dias fundeados, patamar que a Kuehne+Nagel classifica como porto fortemente afetado. Em Santos, a Everstream Analytics apontou espera média de 3,4 dias em 14 de outubro, atribuída ao mau tempo. Em Paranaguá (PR), a Portos do Paraná colocou em consulta pública, até 21 de outubro, novas regras para a fila de graneleiros no berço 201.

O pano de fundo é um segundo semestre de cargas pesadas. Santos teve recorde de contêineres em agosto, a exportação de café segue firme e a soja e o milho disputam espaço com o açúcar e os fertilizantes nos berços de granéis. O resultado é um sistema que opera sem folga: qualquer fechamento de barra, neblina ou chuva forte se transforma em fila.

3,4 dias

espera média em Santos em 14/10, segundo a Everstream Analytics

5 dias

espera média em Navegantes (SC) entre 30/9 e 6/10, segundo a Kuehne+Nagel

2,1 dias

espera média em Paranaguá em 14/10, segundo a Everstream

70,7%

fatia de Santos nas exportações de café do Brasil de janeiro a setembro

Santos: espera mais longa que no primeiro semestre

A série semanal da Kuehne+Nagel, que mede a média móvel de sete dias de espera dos navios, mostra que Santos operou entre 1,1 e 1,6 dia na maior parte do ano. O indicador subiu para cerca de 3 dias na semana encerrada em 1º de setembro, quando a consultoria apontou maior densidade de operações nos terminais como fator de atraso. A Everstream, que usa metodologia própria, registrou 3,4 dias em 14 de outubro, com o clima desfavorável como causa principal. Pelos critérios da K+N, uma média acima de dois dias já caracteriza porto levemente afetado.

Evolução da espera média em Santos

11 a 16 de abril — cerca de 1,1 dia

Kuehne+Nagel; manobras frequentes no canal atrasavam previsões de atracação e saída

5 a 11 de agosto — cerca de 1,5 dia

Kuehne+Nagel; operação relativamente estável, com reflexos de remanejamento de rotas

26 de agosto a 1º de setembro — cerca de 3 dias

Kuehne+Nagel; maior densidade nos terminais

14 de outubro — 3,4 dias

Everstream Analytics; condições climáticas desfavoráveis

As séries usam metodologias diferentes e não são diretamente comparáveis entre si; servem para indicar a tendência.

Os números de movimentação ajudam a entender a pressão. Em agosto, o porto movimentou 16,38 milhões de toneladas e bateu o recorde mensal de contêineres, com 538,2 mil TEU. Nos oito primeiros meses do ano, os granéis sólidos somaram 64 milhões de toneladas, alta de 2,7% e melhor marca para o período, com a soja em grão respondendo por 49,5% do total. Em agosto, o complexo soja somou 3,08 milhões de toneladas, o açúcar 2,39 milhões e o milho 1,86 milhão. Os dados de setembro ainda não foram divulgados pela autoridade portuária.

O custo da espera de contêineres já aparece nas tarifas. Levantamento da consultoria Neowise indica que o tempo médio de espera dos navios de contêineres subiu de 8 a 9 horas em 2019 para cerca de 35 horas em 2024, movimento acompanhado pela alta das taxas cobradas nos terminais.

16,38 Mt

movimentação total de Santos em agosto de 2026

538,2 mil TEU

recorde mensal de contêineres, em agosto

64 Mt

granéis sólidos de janeiro a agosto (+2,7%), melhor marca para o período

Café: o risco está na janela de embarque

No café, a pressão se traduz menos em fila de navio e mais em risco de perder o prazo de entrega no terminal. Quando o navio atrasa, a janela de recebimento da carga muda, e o exportador corre o risco de ter o contêiner rolado para outra escala, o que encarece a operação e adia o recebimento pelo comprador.

Os embarques seguem em ritmo forte. O Cecafé informou que o Brasil exportou 3,894 milhões de sacas em setembro, alta de 3,1% sobre o mesmo mês de 2025, com receita de US$ 1,282 bilhão, queda de 7,1%. As compras dos Estados Unidos saltaram 86,4%, para 625.192 sacas, com a retomada dos pedidos após o período de incertezas tarifárias. No primeiro trimestre do ano-safra 2026/27, de julho a setembro, as exportações somaram 11,21 milhões de sacas, avanço de 15,5%.

Indicadores de exportação de café

Exportações do Brasil em setembro

3,894 milhões de sacas (+3,1%)

Embarques por Santos em setembro

2,78 milhões de sacas (-5,8% sobre agosto, de 2,95 milhões)

Exportações de janeiro a setembro

29,095 milhões de sacas (-0,2%)

Santos de janeiro a setembro

20,573 milhões de sacas (70,7% do total nacional)

Receita em setembro

US$ 1,282 bilhão (-7,1%)

Fonte: Cecafé, relatório de exportações de setembro de 2026, e cobertura da imprensa especializada.

Atenção ao dado

O recuo de 5,8% nos embarques de café por Santos em setembro, frente a agosto, não é atribuído a atrasos de navios nas fontes consultadas. Não foi localizado, até esta data, boletim recente do Cecafé que quantifique as sacas que deixaram de ser embarcadas por problemas portuários no mês.

Grãos: o mapa da exportação se desloca para o Norte

Parte da pressão sobre Santos vem de uma mudança estrutural no escoamento. Segundo a Conab, os portos do Arco Norte embarcaram 58,06 milhões de toneladas de soja e milho em 2025, alta de 59% sobre 2021, e responderam por 36,2% das exportações de soja e 48% das de milho. De janeiro a julho de 2026, a região respondeu por 46,1% do milho e 39% da soja exportados pelo país, com Barcarena (PA) em destaque: 11,06 milhões de toneladas de soja e 1,77 milhão de milho no período, mais que o dobro do volume de milho do ano anterior.

O avanço do Norte, porém, também esbarra em gargalos. O Plano Nacional de Logística 2050 aponta que Vila do Conde já utiliza cerca de 68% da capacidade instalada e que a combinação de alta ocupação e crescimento de volumes pode formar fila no fundeio. Nas estradas, a fila de caminhões para acessar os terminais de Miritituba (PA) chegou a 40 quilômetros na BR-163 em fevereiro, no pico da colheita de soja. A Conab alerta ainda que períodos de seca podem comprometer a navegabilidade dos rios Madeira, Tapajós e Amazonas, rotas que alimentam Itacoatiara, Santarém e Barcarena.

Outros portos sob pressão

Navegantes (SC)

Espera média de cinco dias entre 30/9 e 6/10 (Kuehne+Nagel), com pátio da Portonave a 78% de ocupação, segundo a Hapag-Lloyd. O canal do Itajaí-Açu foi interditado e reaberto com restrições várias vezes desde o fim de agosto, por correnteza, rompimento de cabos de um navio e neblina.

Itajaí (SC)

Espera média de cerca de dois dias no mesmo período. Divide com Navegantes o canal de acesso, que opera com limitações de calado por assoreamento. Em abril, a Marinha reduziu em 30 centímetros a profundidade operacional, o que levou os navios a embarcar cerca de 10% menos contêineres.

Paranaguá (PR)

Espera média de 2,1 dias em 14/10 (Everstream). O TCP, terminal de contêineres, aparecia com tempo de permanência no pátio acima da meta na atualização da Hapag-Lloyd de 6/10. Em agosto, a Kuehne+Nagel já apontava congestionamento por concentração de chegadas. O Plano Mestre indica que, nos picos de safra, a espera para atracar pode chegar a 23 dias, com mais de 100 dias de chuva por ano.

Itapoá (SC) e Rio Grande (RS)

Terminais com espera acima de seis horas e tendência de piora na atualização operacional da Hapag-Lloyd de 6/10.

Vila do Conde, Barcarena (PA)

Ocupação de cerca de 68% da capacidade, com risco de fila no fundeio previsto pelo PNL 2050 diante do crescimento de grãos.

Manaus (AM)

A Maersk prevê restrições de capacidade entre as semanas 48 e 52 (aproximadamente novembro e dezembro), com a vazante dos rios reduzindo a profundidade disponível.

Fontes: Kuehne+Nagel, Hapag-Lloyd, Everstream Analytics, Portos do Paraná, Conab e PNL 2050. Dados de espera usam metodologias distintas.

Paranaguá tenta organizar a fila de graneleiros

A proposta da Portos do Paraná altera o Capítulo V do regulamento de programação, operação e atracação de navios, com foco no berço 201, usado na exportação de granéis sólidos. A lista de embarcações habilitadas à atracação ficaria limitada a quatro navios. A preferência segue com os que transportam grãos e farelos com consignação mínima de 52,5 mil toneladas, na proporção de dois navios preferenciais para cada um atendido pela ordem regular da fila. O texto prevê ainda estoque mínimo de carga, metas de produtividade e penalidades para quem descumprir prazos de carregamento. A consulta pública vai até 21 de outubro e as regras podem ser ajustadas depois.

Obras e prazos: o alívio é de médio prazo

Em Navegantes, a Portonave informou que a obra de adequação do cais, iniciada em janeiro de 2024, estava 96% concluída no fim de agosto e deve terminar no último trimestre deste ano. O cais chegará a 900 metros, permitindo três navios simultâneos, e a capacidade subirá de 1,5 milhão para 2 milhões de TEU por ano. O canal, porém, segue como limite: a concessão de manutenção e aprofundamento até 16 metros foi aprovada pelo TCU em maio, e o leilão ainda está previsto para este ano. A pressão deve aumentar em dezembro, com a nova malha de serviços Ásia-Brasil adicionando escalas no complexo.

Em Santos, o debate de capacidade passa pelo leilão do Tecon Santos 10, ainda cercado de disputas. Em agosto, o Cade aprovou sem restrições a reestruturação societária da BTP entre Maersk e MSC, o que abriu caminho para as duas disputarem o terminal. A dragagem do canal, por sua vez, enfrenta suspensões e questionamentos no TCU, como o Portogente acompanhou no mesmo mês.

Análise Portogente

O retrato desta semana é de um sistema portuário que perdeu a margem de segurança. Santos subiu de cerca de um dia e meio de espera para algo próximo de três a quatro dias em poucas semanas, e o motivo apontado é circunstancial: clima, densidade de operações, fechamentos de barra. Quando a espera depende de tempo e de manobras no canal, qualquer evento vira fila, porque não há capacidade ociosa para absorver o atraso.

A migração de grãos para o Arco Norte alivia Santos, mas está longe de resolver o problema: Vila do Conde já opera perto de 70% da capacidade, e o Norte depende de rodovias saturadas e rios sujeitos à seca. No Sul, a alternativa que muitos exportadores e armadores usam quando Santos aperta, Paranaguá, Itapoá e Navegantes, também apresenta sinais de aperto. O alívio estrutural está nas obras e leilões, com prazos que atravessam a safra 2026/27. Até lá, a previsibilidade de janela, e não só a velocidade de atracação, será o ativo mais disputado pelos exportadores de café e grãos.